Guerra no Irã e Choque do Petróleo Expõem Insegurança Energética do Brasil
Data: 10 de outubro de 2023
A recente guerra no Irã e o concomitante fechamento do Estreito de Ormuz evidenciam a vulnerabilidade energética do Brasil, que, em meio à Operação Lava Jato e à pressão das multinacionais do petróleo, interrompeu o projeto de expansão da sua capacidade de refino. Essa avaliação é do ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, que lançou o livro Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro, focando nas possibilidades do hidrogênio na transição energética.
Em entrevista à Agência Brasil, Gabrielli afirmou que as intervenções dos Estados Unidos na Venezuela e no Irã têm o potencial de modificar o comércio mundial de petróleo, com uma provável maior participação de países como Brasil, Canadá e Guiana no fornecimento de petróleo bruto para os mercados da China e da Índia. Contudo, a falta de infraestrutura de refino no Brasil, especialmente para diesel, deixa o país exposto às instabilidades do mercado atual.
Efeitos da Guerra no Comércio Global de Petróleo e Gás
Gabrielli comparou a situação atual a choques anteriores de petróleo, como os de 1973 e 1979, os quais tiveram impactos significativos na economia global. Ele apontou que a guerra atual está provocando uma nova reorganização nas rotas de comércio do petróleo e gás, especialmente no Oriente Médio, onde novas refinarias estão sendo construídas.
A política agressiva dos EUA, especialmente durante o governo Trump, visa o controle do mercado de petróleo, exemplificada pela imposição de sanções ao Irã e a intervenção na Venezuela. “O Irã, como segundo maior produtor do Oriente Médio, está em uma posição complexa devido às sanções, mas ainda assim sustenta um mercado paralelo que atende a China”, observou Gabrielli.
O Estreito de Ormuz, considerado uma das principais rotas de transporte de petróleo, está sob controle iraniano, que impôs novas condições de passagem, favorecendo transações em yuan. Essa estratégia sugere uma possível mudança na dinâmica de negociação no mercado, tradicionalmente dominado pelo dólar.
O Papel das Importadoras de Combustíveis no Brasil
Desde o governo Temer, cerca de 300 importadoras de derivados foram autorizadas no Brasil. Durante esse período, a Petrobras operou suas refinarias a uma capacidade reduzida, criando espaço para o mercado de importadores. Gabrielli comentou que, em 2023, com o governo Lula, as refinarias voltaram a operar perto da capacidade máxima, mas ainda não conseguem atender completamente à demanda nacional.
Ele alerta que muitos importadores atuam de forma especulativa, importando combustível quando os preços internacionais são mais baixos do que os nacionais, tornando a segurança energética do Brasil uma questão crítica.
Impactos na Transição Energética
Gabrielli também destacou que a dependência atual de combustíveis fósseis é uma realidade, e cortar essa dependência abruptamente não é viável. “Pensa-se que fechar refinarias e interromper a produção de petróleo pode ser uma solução rápida, mas isso é uma ilusão”, disse. Ele acredita que o impacto do novo choque do petróleo terá efeitos de longo prazo, impulsionando a transição energética, enquanto o hidrogênio verde pode se tornar uma alternativa, apesar de ainda depender de um mercado robusto.
Para que o hidrogênio verde se torne uma solução viável, é essencial que haja uma política voltada para sua demanda. Gabrielli sugere que, embora a previsão seja de que o hidrogênio verde se torne predominante no mercado de combustíveis até 2035, é necessário que as decisões para essa transição sejam tomadas imediatamente.
Conforme o debate sobre a segurança energética do Brasil se intensifica, as palavras de Gabrielli ecoam a necessidade urgente de reavaliar as políticas de refino e importação para garantir um futuro energético mais estável.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil, destacando a Refinaria Abreu e Lima (RNEST), da Petrobras, que trabalha para reduzir a emissões e aumentar a eficiência energética.
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Fonte: Agencia Brasil.
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