Classificação de facções como terrorismo pode abrir portas aos EUA.

InternacionalClassificação de facções como terrorismo pode abrir portas aos EUA.

Proposta que Equipara Facções Criminosas ao Terrorismo Gera Debate no Brasil e Preocupa Especialistas

A proposta de lei 1.283/2025, que visa equiparar facções criminosas à prática do terrorismo, suscita debates acalorados no Brasil. Os especialistas em relações internacionais, terrorismo e segurança pública alertam que a iniciativa pode abrir caminho para uma intervenção dos Estados Unidos na América Latina, em um cenário já tenso na geopolítica da região.

A votação do projeto está prevista para esta terça-feira (4) na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. O tema ganhou destaque após uma megaoperação policial no Rio de Janeiro que resultou em um elevado número de mortes.

De acordo com o jurista Walter Maierovitch, a distinção entre crime organizado e terrorismo é crucial. “As facções buscam lucro, enquanto o terrorismo tem um objetivo político”, enfatizou. Maierovitch acrescentou que a confusão entre os dois conceitos, muitas vezes perpetrada pela mídia e pelo público, desvirtua as nuances que a legislação internacional contempla, como a Convenção das Nações Unidas sobre crime organizado.

A professora Rashmi Singh, coordenadora do núcleo de estudos de terrorismo e crime transnacional da PUC Minas, destaca que a rotulação de grupos como terroristas pelos EUA tem gerado legitimidade para ações militares e políticas em várias partes do mundo. Ela cita exemplos históricos, como a invasão do Iraque, que resultou no surgimento do Estado Islâmico, e a atual normalização de ações consideradas ilegais sob o direito internacional humanitário, como os massacres em Gaza.

A influência americana no Brasil se torna mais evidente conforme governos na região, como o de Javier Milei na Argentina, começam a adotar legislações semelhantes que classificam facções criminosas como terroristas. Essa situação leva à necessidade de o Brasil se manter alerta e resistir a uma possível pressão dos EUA para justificar intervenções.

Além disso, a discussão em torno do PL 1.283/2025 sinaliza que o governo brasileiro está buscando endurecer suas políticas de segurança, com a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e o PL Antifacção, semelhantes a alguma política externa adotada anteriormente por administrações dos EUA.

Singh sustenta que a equiparação de narcotraficantes a terroristas tem potencial para liberar a atuação militar dos EUA no Brasil. “Houve casos recentes em que forças armadas dos EUA utilizaram medidas de força direta contra cartéis, incluindo ataques aéreos”, destacou.

O uso da terminologia de “narcoterrorismo” por políticos brasileiros, como o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, que, em reuniões, tem mencionado as facções como “narcoterroristas”, pode reforçar esse clima de crescente militarização na segurança pública.

No entanto, a posição do governo federal, representada pelo ministro da Justiça, Ricardo Lewandoviski, contrasta com essa tendência. O ministro defende que o terrorismo envolve uma questão ideológica e que as facções criminosas devem ser tratadas como grupos de crime organizado com motivações financeiras.

As discussões sobre a eficácia da criminalização das facções e suas consequências se intensificaram após uma operação policial que resultou na morte de 121 pessoas no Rio de Janeiro. Relatos indicam que o governo local enviou informações ao governo dos EUA, argumentando que a situação das facções se ajustava à categoria de terrorismo, embora a assessoria do governador não tenha confirmado tais relatos.

As repercussões desse debate são extensas e colocam em evidência as complexidades enfrentadas pela política de segurança pública no Brasil e a necessidade de um diálogo cuidadoso sobre a distinção entre crime e terrorismo em um contexto que envolve influências externas.


Imagem: Ataque a uma embarcação que realizava transporte de drogas na Venezuela. Foto: Donald Trump Truth Social/Divulgação.

Imagem: Ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, durante reunião sobre a Operação Contenção. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.

Classificar facções como terrorismo expõe Brasil à intervenção dos EUA

Fonte: Agencia Brasil.

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