Desigualdades Socioeconômicas Afetam Acesso à Educação Infantil no Brasil
Um novo estudo realizado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) evidencia como as desigualdades socioeconômicas impactam diretamente o acesso à educação infantil no Brasil. A pesquisa, intitulada O desafio da equidade no acesso à educação infantil: uma análise do CadÚnico e do Censo Escolar, tem como base os microdados de 2023 e traz à tona dados significativos sobre o acesso reduzido de crianças de baixa renda a creches e pré-escolas.
O levantamento revela que, entre os 10 milhões de crianças de baixa renda cadastradas no CadÚnico, apenas 30% estão matriculadas em creches. Em relação à pré-escola, que é uma etapa obrigatória da educação básica, apenas 72,5% das crianças de 4 e 5 anos pertencentes a famílias de baixa renda têm matrícula garantida.
O CadÚnico é uma ferramenta administrativa que registra informações socioeconômicas de famílias de baixa renda, incluindo escolaridade, renda e condições de moradia. Por sua vez, o Censo Escolar, conduzido anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), serve como a principal fonte para análises sobre a cobertura escolar no país.
Críticas e Desafios
Mariana Luz, presidente da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, destaca a importância das creches para o desenvolvimento infantil, especialmente para crianças em situações de vulnerabilidade. “A creche é um espaço de aprendizagem e desenvolvimento que também proporciona segurança”, afirmou, reiterando que a baixa taxa de matrícula entre as crianças do CadÚnico é preocupante. Apesar de um aumento de 20% para 30% nas matrículas, 70% ainda estão fora das creches.
Desigualdades Regionais
O estudo aponta que a desigualdade no acesso à educação infantil é mais acentuada na Região Norte, onde apenas 16,4% das crianças de baixa renda estão matriculadas em creches, seguidas pelo Centro-Oeste (25%) e Nordeste (28,7%). As regiões Sul (33,2%) e Sudeste (37,6%) apresentam índices superiores à média nacional de 30%.
Além disso, a análise mostra que a taxa de matrícula na pré-escola varia de 68% a 78% nas diversas regiões, novamente com as menores taxas concentradas no Norte e Nordeste. Mariana Luz enfatiza que o acesso depende da idade da criança e que, muitas vezes, as unidades escolares não oferecem vagas para crianças menores de 2 anos.
Fatores de Influência
Fatores como renda, moradia e escolaridade dos responsáveis também determinam o acesso à educação infantil. O estudo revela que o emprego formal dos responsáveis aumenta em 32% a probabilidade de matrícula na creche, enquanto a remuneração informal reduz essa chance. A presença de infraestrutura adequada nas áreas de moradia ainda influencia o acesso, favorecendo as crianças em domicílios com melhores condições.
Ainda, programas de transferência de renda como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o Programa Bolsa Família (PBF) aumentam as chances de matrícula. O BPC, por exemplo, eleva em 12% a probabilidade de uma criança estar na creche.
Questões de Raça e Gênero
O estudo também destaca a influência de fatores de raça, gênero e deficiência no acesso à educação infantil. Crianças não brancas apresentam menores possibilidades de estarem matriculadas em creches. As diferenças são notáveis: crianças brancas têm 4% mais chance de estar na creche em comparação a crianças pretas, pardas e indígenas. Além disso, meninas têm 4,05% menos chance de frequentar creches e crianças com deficiência enfrentam 13,44% menos probabilidade de estarem na pré-escola.
Luta por Equidade
O estudo é lançado em um momento crítico, quando se discute o novo Plano Nacional de Educação (PNE) e a Política Nacional Integrada da Primeira Infância (PNIPI). Mariana Luz ressalta que a educação infantil é uma etapa fundamental para o desenvolvimento da criança, e a desigualdade no acesso evidencia a necessidade de políticas públicas que priorizem a inclusão e a equidade.
“As crianças do CadÚnico devem ser prioritárias nas políticas de matrícula”, afirma Mariana, sublinhando que a educação infantil é um instrumento poderoso para combater a desigualdade e que garantir o acesso a essa etapa educativa é um direito fundamental que deve ser assegurado a todas as crianças, independentemente de sua origem.

Antonio Cruz/Agência Brasil
Desigualdades sociais dificultam acesso à educação infantil no Brasil
Fonte: Agencia Brasil.
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