Cuidado e Trabalho Não Remunerado: A Realidade das Mulheres no Brasil
De acordo com a pesquisa mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres brasileiras dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais do que os homens em tarefas domésticas e cuidados. Isso totaliza mais de mil horas anuais em um trabalho invisível e não remunerado, essencial para o suporte da família, que inclui filhos, cônjuges e pais.
A Voz do Cuidado
Uma pesquisa realizada por acadêmicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) revelou que, surpreendentemente, 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres. Este grupo, predominantemente composto por filhas, cônjuges e netas, tem uma média de idade de 48 anos. A pesquisadora Valquiria Elita Renk, uma das autoras do estudo, enfatiza que essa responsabilidade não só afeta a vida profissional como também os estudos e o bem-estar das mulheres.
“Uma mulher para de estudar para cuidar dos irmãos e dos trabalhos domésticos. Faz isso todos os dias e, quando termina, recomeça no dia seguinte. É um trabalho que não tem fim,” relata Renk.
Reconhecimento do Trabalho de Cuidado
A pesquisadora destaca que o trabalho de cuidado tem uma forte raiz cultural no Brasil. Enquanto países como Finlândia e Dinamarca oferecem compensações financeiras aos cuidadores, o Brasil ainda engatinha no reconhecimento dessas funções. A Política Nacional do Cuidado, criada em 2024, está em processo de implementação, mas ainda carece de avançar nas práticas de valorização e apoio.
“Ao fazer esse trabalho, não estamos apenas administrando medicamentos ou realizando atividades diárias. Está em jogo uma relação afetiva que se constrói ao longo do tempo,” explica Renk, ressaltando a importância de que o cuidado seja reconhecido como um trabalho digno.
O Custo do Cuidado
O estudo aponta que muitas mulheres sacrificam suas próprias ambições profissionais e educacionais para dedicar-se integralmente a familiares, com 61% das entrevistadas afirmando ter deixado de trabalhar para se tornarem cuidadoras. O cansaço, a solidão e a ausência de reconhecimento são sentimentos comuns entre essas mulheres, que frequentemente enfrentam solidão e desamparo em suas jornadas.
Ao longo das entrevistas, muitas mulheres afirmaram fazer o que fazem por “obrigação”, revelando uma cultura que normaliza a sobrecarga delas. As participantes eram principalmente filhas (68%), esposas (21%), netas e irmãs (5%), e se sentem exaustas por suas múltiplas responsabilidades.
Diversidade de Perfis
O estudo incluiu 18 entrevistas com mulheres das áreas urbanas e rurais dos estados do Paraná e Santa Catarina. Entre as profissões, 32% se identificaram como agricultoras e 26% como funcionárias públicas ou em diversos segmentos do mercado de trabalho. Uma minoria (11%) declara ser responsável apenas pelos afazeres domésticos, enquanto 5% são estudantes.
Cada mulher possui uma história única de dedicação, porém, a maioria reporta que não há colaboração significativa da família nas atividades de cuidado, o que torna a situação ainda mais desafiadora. Renk observa que as cuidadoras frequentemente não têm tempo para cuidar de si mesmas, o que resulta em um ciclo vicioso de responsabilidade e esgotamento.
A Reestruturação Necessária
A pesquisa sugere uma mudança cultural fundamental, buscando educar tanto meninos quanto meninas sobre a importância da divisão equitativa das tarefas domésticas. Essa transformação é essencial para que as futuras gerações não reproduzam os mesmos padrões de cuidado excessivo que recaem sob as mulheres.
“É necessário que familias e estruturas sociais reconheçam que o trabalho do cuidado estatal deve ser compartilhado, quebrando o ciclo de sobrecarga,” afirma Renk, focando no que ela define como a “Geração Sanduíche”, onde mulheres equilibram trabalho formal com as exigências de cuidar de filhos e idosos simultaneamente.
Políticas de Apoio
Em países como o Uruguai, já há legislação que permite às mulheres se aposentarem mais cedo em função do número de filhos. Tais políticas servem como modelo para evoluir as práticas de cuidado no Brasil, onde a expectativa é de que o reconhecimento e a compensação, tanto financeira quanto social, se tornem realidade para as mulheres que sustentam a estrutura familiar.
Conclusão
A pesquisa, coordenada pelas professoras Ana Silvia Juliatto Bordini e Sabrina P. Buziquia, evidencia a urgência de um diálogo sobre a valorização do trabalho invisível e a necessidade de mudanças estruturais que possam aliviar a sobrecarga que recai, predominantemente, sobre as mulheres no Brasil.
Estudo mostra que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres
Fonte: Agencia Brasil.
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