Situação da Síria: Relato do Presidente da Comissão da ONU em Damasco
Em sua recente visita a Damasco, no final de março, Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Inquérito das Nações Unidas (ONU) sobre a Síria, compartilhou um panorama da capital síria e de outras regiões. Ele descreveu Damasco como uma cidade onde as liberdades políticas estão ausentes há cerca de 60 anos, reflexo do regime do partido Baath, liderado pelo ex-presidente Bashar al-Assad. A sua declaração ocorreu em entrevista à Agência Brasil, na qual abordou ainda a grave situação socioeconômica enfrentada pelos sírios.
Pinheiro destacou que, embora Damasco esteja relativamente preservada após mais de 13 anos de conflito, outras áreas do país estão devastadas. Estima-se que cerca de 90% da população síria vive abaixo da linha da pobreza, subsistindo com apenas 2 dólares por dia. Ele sublinhou que a recuperação da Síria depende urgentemente do fim das sanções econômicas impostas por potências ocidentais, em especial pelos Estados Unidos.
“Os recursos econômicos são praticamente inexistentes, e a situação foi agravada pelas sanções. A União Europeia aliviou certas restrições, mas o impacto mais significativo vem das sanções americanas que dificultam a participação da Síria no sistema bancário internacional”, afirmou Pinheiro. Ele fez uma crítica à posição dos EUA, que condicionam a flexibilização das sanções a uma resposta do governo sírio em relação a preocupações com grupos jihadistas.
Damasco, por outro lado, apresentou a Pinheiro um panorama curioso. A capital não parecia ter sofrido os horrores da guerra, mantendo áreas com vida cotidiana ativa, como jardins, cafés e restaurantes. Entretanto, as periferias da cidade, como Harasta, Douma e Zabadani, mostram a realidade oposta: bairros bombardeados e a população vivendo em condições precárias.
Durante sua visita, o presidente da comissão também recebeu informações sobre a investigação de massacres recentes contra civis da comunidade alauísta na costa leste da Síria. Ele enfatizou que é essencial monitorar a atuação do comitê criado pelo governo para lidar com essas atrocidades, que mancharam a imagem do atual governo.
Segundo Pinheiro, o novo governo, que assumiu há apenas quatro meses, tem se mostrado receptivo ao diálogo. Entretanto, ele alertou que não se deve esperar uma transição para uma democracia liberal no imediato. “Agora, vamos ver mudanças. O importante é que a ditadura foi suspensa e existe um espaço para o diálogo, mas ainda existem muito desafios e a realidade em várias áreas é complexa”, declarou.
Os novos líderes do governo têm conversado com as comunidades, inclusive com as cristãs, que estão cautelosas quanto ao futuro. Contudo, o presidente interino, Ahmed al-Sharaa, que tem um passado complicado envolvendo grupos jihadistas, tem adotado um discurso voltado para a promoção de liberdades.
Pinheiro ressaltou a necessidade de uma ação mais contundente da comunidade internacional em relação aos ataques de Israel à Síria, que continua a bombardear o país sob justificativas políticas. O presidente da comissão destacou que esses ataques não têm respaldo nas normas internacionais e precisam ser coibidos.
Ao encerrar sua análise, a expectativa sobre o futuro político sírio permanece incerta, com a necessidade de uma democracia efetiva ainda distante devido à complexidade do contexto social, político e econômico da região.
Créditos das imagens:
- Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão Independente Internacional de Investigação das Nações Unidas (ONU) – Foto: Brics/Divulgação.
- Crianças refugiadas sírias em acampamento no Líbano – Foto: Sam Tarling/ACNUR/ONU News.
- Membros da polícia síria em Damasco – Foto: REUTERS/Ali Hashisho.
- Região de Ghouta bombardeada – Foto: Bassam Khabieh/Reuters.
Futuro da Síria depende do fim de sanções dos EUA, diz enviado da ONU
Fonte: Agencia Brasil.
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