Estudo revela que 50% dos alunos ignoram debate antirracista nas escolas

EducaçãoEstudo revela que 50% dos alunos ignoram debate antirracista nas escolas

O Ensino da Cultura Negra no Brasil: Um Desafio Persistente

Brasília – Uma tarefa escolar em Brasília, com o tema “A herança da cultura negra na formação do Brasil”, chamou a atenção da advogada Karina Berardo, mãe de uma aluna de 15 anos. Segundo ela, essa abordagem representa um avanço na discussão sobre a contribuição da cultura negra no país, embora a percepção ainda seja de que o tema é tratado de forma limitada nas escolas.

Karina observou que, ao longo do ensino fundamental, as discussões sobre raça se restringiam, muitas vezes, à escravidão. “A proposta é uma novidade, mas ainda está muito caricata”, comenta.

Esse sentimento se alinha a um estudo inédito divulgado recentemente, que revela a percepção de estudantes a respeito do ensino de conteúdos de temática racial nas escolas. Realizado a partir de dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), em parceria com instituições como o Cebrap, o levantamento revelou que quase 50% dos alunos do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio não reconhecem o debate sobre desigualdades raciais nas salas de aula, apesar das leis que estabelecem o ensino sobre história e cultura africana, afro-brasileira e indígena.

A Realidade nas Escolas

O estudo, intitulado “Desigualdade racial na Educação Básica: a percepção de estudantes e professores a partir do Saeb 2023”, constatou que, embora existam legislações antirracistas, sua aplicação nas escolas ainda é irregular. A socióloga Flávia Rios, professora da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Cebrap, destacou que, mesmo com iniciativas para a formação de gestores e docentes nas últimas duas décadas, ainda há um longo caminho a percorrer.

“A legislação está saindo do papel, mas de forma muito irregular. A educação antirracista ainda não se consolidou como experiência reconhecida”, disse Rios. Ela enfatiza que é necessário ampliar a legislação para garantir consistência e persistência no sistema curricular, especialmente nas escolas privadas, onde a aplicação das normas é menos cobrada.

Divergências entre Professores e Alunos

Outro ponto importante do estudo é o descompasso entre o que os professores afirmam ensinar e o que os alunos reconhecem. Enquanto 81,6% dos docentes do 9º ano e 71,6% do 3º ano do ensino médio relatam abordar desigualdades raciais frequentemente, apenas 46,6% dos alunos do ensino fundamental e 46,8% dos do ensino médio confirmam que esses temas são discutidos em sala de aula.

A pesquisadora Eliane Firmino, também do Cebrap, aponta que a efetividade da legislação está comprometida, com aplicação heterogênea e limitações na educação brasileira. Vale ressaltar que as escolas privadas não são obrigadas a participar do Saeb, o que pode distorcer a percepção dos resultados.

Percepções Variadas

A percepção sobre a abordagem das desigualdades raciais varia conforme a rede escolar e o perfil dos estudantes. Em escolas privadas, 60,8% dos alunos do ensino fundamental e 60,8% do ensino médio relatam a ausência do tema, enquanto as porcentagens caem na rede pública para 51,4% e 51,9%, respectivamente. Adicionalmente, estudantes brancos tendem a reconhecer menos a presença do debate racial em comparação a estudantes negros e pardos.

“Educação antirracista não é apenas para estudantes negros, mas uma formação cidadã para todos”, afirma Eliane Firmino.

Chamada à Ação

Suelaine Carneiro, coordenadora do Programa de Educação e Pesquisa do Instituto Geledés, ressalta a necessidade de fiscalização e ações coordenadas. A educação sobre relações étnico-raciais deve engajar todos os grupos sociais, para que se compreenda a pluralidade da sociedade brasileira.

Os dados ressaltam a urgência de melhorar o monitoramento das políticas públicas educacionais. Além da necessidade de uma formação continuada para docentes e gestores, é fundamental aumentar a diversidade racial no corpo docente e promover uma interação mais significativa entre escolas e famílias.

A questão racial ainda é um tópico delicado e, como percebe Juliana Couto, servidora pública e mãe de duas meninas que já enfrentaram preconceito, o progresso é gradual. “Talvez minhas bisnetas possam se beneficiar dessas pequenas sementes plantadas agora”, conclui.

A pesquisa aponta um futuro desafiador para a educação antirracista no Brasil, deixando claro que mais ações são necessárias para que a cultura negra e indígena seja incorporada de forma efetiva ao currículo escolar e reconhecida por todos os estudantes.

Metade dos estudantes não vê debate antirracista na escola, diz estudo

Fonte: Agencia Brasil.

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