EUA e Arábia Saudita Assinam Acordo de Cooperação Nuclear Que Levanta Críticas e Preocupações
Um novo acordo de cooperação nuclear entre os Estados Unidos (EUA) e a Arábia Saudita, que deve durar “décadas” e envolver bilhões de dólares, está gerando um intenso debate sobre a política externa da Casa Branca em relação à questão nuclear. O pacto, que ainda não foi divulgado na íntegra e requer a análise do Congresso estadunidense, sugere um caminho controverso para o enriquecimento de urânio pela Arábia Saudita, sob a alegação de fins pacíficos, enquanto a administração de Donald Trump insta o fim do enriquecimento por parte do Irã.
A situação se complica ainda mais após críticas de aliados como Israel. Trump recorreu às redes sociais para afirmar que a cooperação nuclear com Riade está condicionada à assinatura dos Acordos de Abraão pela Arábia Saudita, que obrigam os países árabes a reconhecer Israel, independentemente da questão palestina. Os sauditas, por sua vez, condicionam sua adesão a garantias para um Estado palestino, desconsideradas pelo governo israelense.
Proteção à Monarquia Saudita
De acordo com o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o acordo reflete uma contradição na política nuclear dos EUA e uma tentativa de Trump de restaurar a confiança da Arábia Saudita em relação à proteção americana, especialmente após a escalada das tensões com o Irã. “Isso é um reconhecimento da falência do ‘escudo americano’”, afirma.
Ainda que Trump assegure que a Arábia Saudita não desenvolverá armas nucleares, especialistas alertam que a monarquia se recusa a aceitar um “protocolo adicional” da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que permitiria inspeções-surpresa em suas instalações nucleares. “Os líderes sauditas manifestaram o desejo de desenvolver um ciclo completo de combustível nuclear, desde a extração de urânio até o reprocessamento do material irradiado”, afirma a Associação de Controle de Armas.
Implicações Regionais e Críticas Internacionais
A decisão dos EUA de avançar com o acordo suscita críticas de organizações que lutam contra a proliferação nuclear, que alertam que isso poderia enfraquecer a posição americana nas negociações com Teerã. O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, já havia declarado sua intenção de buscar uma arma nuclear caso o Irã conseguisse acesso a uma.
Roberto Goulart Menezes, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), ressalta que, embora a Arábia Saudita tenha assinado o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), a cooperação com os EUA é um sinal contraditório para a região. “Isso aumenta as incertezas na região”, comenta.
Histórico e Contexto do Acordo
As discussões sobre um possível acordo nuclear entre os EUA e a Arábia Saudita começaram em 2008, mas avançaram lentamente, em parte devido ao assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi em 2018, um evento que mobilizou a opinião pública americana contra Riade. As negociações retomaram força sob a administração de Trump, culminando na assinatura de uma declaração conjunta em novembro do ano anterior.
Este acordo surge em um contexto de escalada de conflitos no Oriente Médio, especialmente após a recente provocação dos houthis no Iémen, que bloquearam a passagem de navios sauditas no Estreito de Bab el-Mandeb, complicando ainda mais as já frágeis exportações do reino.
Visão de Especialistas sobre as Consequências do Acordo
O especialista da UnB enfatiza a história da diplomacia nuclear americana, que, desde a Guerra Fria, busca convencer países a renunciar ao desenvolvimento de armamentos nucleares. O contraste do tratamento diferenciado entre a Arábia Saudita e a Coreia do Sul, que busca um acordo semelhante, ressalta um flagrante duplo padrão na política nuclear dos EUA.
Com a assinatura do pacto, analistas e críticos expressam preocupação sobre o impacto potencial do acordo na segurança regional, especialmente com um histórico de tensões entre os países envolvidos.
Acordo com Arábia Saudita expõe contradição dos EUA na questão nuclear
Fonte: Agencia Brasil.
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